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20090718


era uma vez...



Era uma vez dois irmãos impossíveis.

Eles haviam nascido e crescido em um defeito inimaginável do espaço-tempo. Um era o caçula do outro, e seus pais acabaram sofrendo uma violenta morte antes mesmo que soubessem uma resposta para o enigma. Tudo parecia um estranho acidente.

Esta complicação quase imaginária foi descoberta já na idade adulta. Eles viveram como se fossem gêmeos até os dias em que souberam, finalmente, que algo estava errado. Afinal, as memórias obscuras são simplesmente traiçoeiras...

Um deles era pálido, ou outro era bronzeado. Um era homem, a outra era mulher. Um deles tinha bom apetite, comia tanto carnes cozidas quanto vegetais crus. O outro simplesmente comia carne crua sem se mostrar, e também gostava muito de frutos frescos.

Um deles não poderia jamais andar sob a luz do Sol, enquanto o outro sabia tantos segredos sobre as sombras mais densas que temia ser confrontado por elas, até que os intestinos lhe doessem de ansiedade.

Eles brincaram juntos entre as horas de Sol à pino e as da noite mais densa. Sabiam que tinham pouco tempo para brincarem juntos, não fossem aquelas horas do anoitecer e do entardecer. O tempo que não passavam juntos, passavam se imaginando um ao outro, e sentiam saudades.

Um dia despertaram juntos no meio da tarde, ou no meio da manhã; era um dia chuvoso, e não se podia dizer com certeza. Eles despertaram juntos, e então se olharam... se olharam fixamente. Se deram conta, enfim, que eram um o reflexo do outro no espelho.

Os dois irmão se deram as mãos, com muita ansiedade, mas também com muita paz de espírito. Eles eram alguma coisa despertando, naquele instante.

Um dia, uma pessoa se deu conta de que era todos os seres humanos, homens e mulheres, do mundo dos vivos pensantes. Não contavam os não pensantes. Não contavam os não vivos. Não contavam os não humanos. Era todos os eles e elas, e isso era bom.

Depois disso, esta pessoa procurou dividir o dia e a noite, ficar acordado parte do dia, parte da noite, mas esta pessoa nunca mais teve certeza de o quanto de cada um (dia e noite) deveria sacrificar para que pudesse dormir e sonhar.

Esta pessoa se deu conta que sonhar era simplesmente uma percepção aguçada do mundo e de si.





20081128


outro sonho



Eu estava em frente à porta da frente de minha última casa em Itaqui, procurando minha chave. Eu gostaria de entrar. Era o um final de tarde, e o céu estava belamente decorado com nuvens muito coloridas, despedaçadas em pequeninos detalhes feito pedrinhas arredondadas, sobrepondo o azul esmaecente.

Então eu me lembrei que eu mesmo havia recém trancado a porta. A tranca era um cadeado grande, pesado, daqueles de corpo dourado "sujo". E eu e lembrei que, infelizmente, eu não havia pego a chave.

Com a janela da porta da frente aberta, mesmo através da tela contra a entrada de moscas e mosquitos, eu podia ver a chave pendurada junto ao friso de madeira da porta da cozinha.

Senti-me muito mal com a ação desavisada, desatenta, de trancar um cadeado sem verificar a posse da chave. Sentia-me pior ainda por ter a certeza de que já fora a segunda vez...

Então, me ocorreu um estranho sentimento de que tudo aquilo era um teatro, e de que qualquer nervosismo que eu experimentasse seria mera representação de uma situação séria e realmente digna de real perturbação. Enfiei as mãos dentro de minha bolsa de cópia de couro negro, ou couro mesmo (nunca soube), e busquei uma nova esperança.

Encontrei uma chave. Era a cópia da chave da Sandra, que eu deixara ali dentro, sem motivo aparente. E assim eu podia abrir a porta.

Neste instante percebi no gradil da porta, quase imperceptível por ter o tamanho de uma unha, imediatamente na altura de meus olhos, sentado um estranho grilo. Eu poderia jamais tê-lo visto. E ele era como eu jamais havia visto: peludo! Com pelos curtos, de tom castanho, mas inconfundivelmente um grilo, com aquelas pernas compridas dobradas.

Lembrei-me imediatamente da interpretação dos chineses, que consideram um sinal de boa sorte a aparição de grilos dentro de casa. Isso pareceu fazer muito, muito sentido, naquele momento.

E eu soube com certeza de que não estava entrando, e sim saindo de casa.

E eu pensei se deveria deixar o grilo entrar quando retornasse à casa, pois ele era muito belo e aparentemente inofensivo.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20081121


outro sonho



Sonhei que eu era uma outra criatura, pendendo sobre algo como o nada, um vazio imenso, e que os abismos abaixo de mim se assemelhavam a poços de líquidos misteriosos, com reflexos instáveis, insinuantes... e eu era um tipo de demônio regular nas portas de um inferno burocrático.

Eu tinha o papel de morder as asas dos anjos que desciam para onde estávamos, como quem poda ovelhas. E eram centenas, feito uma torrente de corpos desanimados. E eu mordia e cuspia repetidamente, cansativamente. Eu não tinha belas feições, mas tinha maxilares fortes que se estendiam em orelhas sobre minha cabeça, continuando os tendões das mandíbulas, dos quais eu me orgulhava.

Meus dentes zuniam no contato com as penas brancas, sólidas como felpas de plástico ou cascalho desfiado e cuidadosamente lavado, feito dobras de coisas que jamais teriam nome, porque eu sentia nas gengivas que tornavam tudo muito complicado, diferente do que seriam simplesmente continuando a serem o que sempre foram.

Eu vez que outra ouvia um anjo ainda vivo, ainda resistente, ainda válido. Ele era imadiatamente cuspido para o topo de montes de feno em brasa, como se eu tivesse medo da reação de alguma autoridade. Eu olhava curioso as faíscas de longe...

E eu abri meus olhos e despertei.




20081115


outro sonho



Sonhei que o planeta Terra estava sendo invadido -- não por uma raça de alienígenas, e sim por um só: Galactus!

Ele aparecia no noticiário da TV o tempo inteiro, e todos observavam as notícias atônitos. A imagem era descomunal, envolta por campo aberto e helicópteros estranhamente iguais aos dos filmes norte-americanos, lembrando os atuais filmes de ficção deles que usam linguagem visual de documentário. Era uma figura quase inumana, mas não totalmente... Semelhante à versão de Moebius para a personagem e também ao Memnoch de Anne Rice, com pernas de cordeiro, era metálico, cinzento e com detalhes em verde esmeralda. Movia-se muito lentamente, como se desacelerado, enquanto máquinas incompreensíveis voavam ao seu redor. Não consegui ver seus olhos, ou mesmo se tinha um rosto.

O devorador, diferentemente da versão dos Quadrinhos e do Cinema, não aterrizara no centro econômico do mundo ocidental. Ele descera aqui mesmo, na América Latina, no interior de Minas Gerais. Os norte-americanos e outros representantes europeus sobrevoavam o local devido a uma aterrorizada permissão de nosso governo. Todos os governos e povos pareciam estar aterrorizados, aliás. Haviam ondas de suicídio e violência extrema nas ruas. Mas não existia a personagem dos Quadrinhos no sonho, visto que ninguém comentava a semelhança. Multidões de religiosos, por outro lado, vociferavam sobre o Apocalipse bíblico e outras referência legendárias... Os cientistas silenciavam atônitos e morbidamente curiosos.

Eu, por outro lado, não sentia medo, sentia uma inexplicável resignação. Eu pensava se o mundo valia a pena ou se o fim absoluto era mesmo uma boa nova. Eu sentia sim muita tristeza, uma incomensurável melancolia que parecia um lago sem fundo e com bordas muito distantes onde eu afundava lentamente... e vi a imagem de Galactus afundando lentamente no piso da Terra onde estava de pé. Eu sentia muito por minha família e meus amigos, especialmente minha mãe. Eu pensava nas crianças que nunca cresceriam, e esta imagem era estranhamente reconfortante, visto que elas jamais conheceriam a dor. Eu sentia uma vertigem maior que o Universo – vontade de que tudo acabasse logo e vontade de acabar com aquilo tudo, simultaneamente.

Eu me lembrei, sem motivo aparente, de que sonhara com tudo aquilo na noite anterior ao primeiro sinal dos eventos. Sonhara também com uma solução estapafúrdia, ainda que muito convincente, da qual não me recordava mais.

E eu estava careca, completamente sem cabelos na cabeça, quando me olhei no espelho, até mesmo sem sobrancelhas. E aquilo parecia perfeitamente natural naquele momento.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080917


outro sonho



Eu não sonhava. Não mais, já havia mais de mês. E, de alguma maneira, eu sabia que era definitivo.

Estava sentado a uma mesa de um bar, semelhante à antiga Lancheria do Parque, da Avenida Osvaldo Aranha em Porto Alegre, com as mesas de madeira. Chovia muito lá fora, de modo que a entrada estava fechada por uma cortina de água torrencial.

Eu me sentia muito mal, triste, com uma angústia ou revolta que pulsava na minha cabeça.

Sentados junto comigo estavam o Everson Klein, o Alexander Girald e o Ricardo Selbach. O primeiro me explicou ter lido em uma reportagem que sonhos funcionavam mais ou menos como a ejaculação no homem, com uma quantidade total por vida, geneticamente pré-definida e que, se alguém utilizasse esta quantidade muito freqüentemente na primeira metade da vida, inevitavelmente cessaria a atividade na segunda metade.

O Ricardo Selbach tinha outra explicação, não biológica, que dizia respeito ao b’log de sonhos: ele acreditava que minha inibição de imagens noturnas era resultado de uma “super-exposição”, ou “promiscuidade”, com os sonhos; assim, a compensação do inconsciente ao fato de eu publicar cruamente um material tão rico e pessoal era um tipo de “apagão”.

Já o Alex pensava que eu simplesmente fiquei deprimido porque ninguém comentava meus posts, e dizia algo como “larga mão, toma mais uma ae”, oferecendo-me um copo de vinho daqueles, da época do Bar João.

De qualquer jeito, fosse qual fosse o motivo, eu sabia que era definitivo.

E eu sabia que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080910


Impressões



Olhei durante um longo tempo para uma mesma paisagem. Estava perdido. Entre os troncos e galhos de uma vegetação fechada, buscava uma saída.
Através das frestas reconheci um local e resolvi seguir para lá. Fiquei surpreso ao encontrar um espaço rotineiro também emaranhado pela contínua paisagem da qual não conseguia escapar. Segui por entre as fendas até chegar em casa. Ao deitar na cama pude então compreender que a trama da paisagem estava fixa sobre o meu olhar.





Acompanhava atento a movimentação do mar, pois sabia que o desenrolar das ondas mantém segredos. Para cada rastro um comportamento da massa salgada sobre a bancada de areia. Na beira da praia, avisto padrões sobre a superfície do mar. Sei localizar os buracos mais fundos para jogar o meu anzol, mas invejo o olhar experiente do pescador, que lança sua tarrafa sobre as sutis oscilações emanadas dos cardumes.



20080909


Medusa


Estava na Europa novamente, acho que dessa vez na Itália, cheguei perto de um edifício absurdamente alto, a vertigem era tamanha que quando meus olhos tentavam fixar o final dele, minhas pernas ficavam bambas e eu caia no chão.
De teimoso e curioso, persistia, mas só conseguia fitá-lo com muitíssima dificuldade por poucos segundos, jogado ao chão com as mãos enfiadas na terra e segurando as raizes das plantas do jardim.



20080824


outro sonho




Eu caminhava por um longo corredor branco, semelhante ao da nave de Kubrik em 2001. Havia lâmpadas de neon brancas ao longo de todo o espaço, na horizontal, do forro ao rodapé, e não se podia enxergar o final da estrutura.

Ao longo do corredor, entre as luzes e na altura dos meus ombros, havia umas caixinhas pequenas, de vidro, incrustadas no branco. Dentro das caixinhas havia miniaturas de uma pessoa, em seqüência, e era eu. E eu sabia que aqueles eram cópias de cada momento de minha vida, como uma fotografia de cada instante, como se alguém conseguisse quebrar nas partículas mínimas o próprio tempo. Eu em cada movimento que vivi, sem nada ao redor, apenas a minha figura, uma depois da outra, e cada coisa...

O mais impressionante, entretanto, eram as figuras de mim mesmo adormecido. Cada “quadro” parecia exatamente igual ao anterior e ao seguinte, então apertei o passo para ver toda a seqüência mais rapidamente, procurando perceber qualquer movimento... ou simplesmente porque aquilo ficou desinteressante.

Então eu vi uma coisa, algo, tomei conhecimento súbito e impressionante! Algum sentido geral captado da observação de seqüências inteiras de mim mesmo dormindo.

Foi como se uma pequena e potente lâmpada tivesse acendido dentro da minha cabeça. “É isto!”, eu pensei.

Alguma coisa muito importante, que mudaria minha vida inteiramente, dali para diante, me fora revelada.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080823


Sonho?

Estava flutuando, relaxada com a cabeça pensando em muitas coisas e ao mesmo tempo em nada. Na hora penso que vou lembrar de tudo o que vejo e sinto, mas é só o despertador tocar que toda aquela magia desaparece. É uma pena isso acontecer. Queria poder manter aquela sensação por todo o tempo.Estar em um lugar e ao mesmo tempo não estar. Poder observar tudo e também participar.






20080816


outro sonho





O meu corpo estava na mesma posição que na cama (e eu tinha consciência disso), deitado com o peito para baixo e o braço direito estendido à frente da minha cabeça; eu estava voando deitado, mais ou menos como uma versão preguiçosa do Super-homem.

Logo, estava além do meu quarto, o ambiente ao meu redor era fluído, era sombrio e cheio de brilhos misteriosos e ligeiros, a velocidade com que mudavam inúmeros detalhes dos quais não me recordo mais. Eu viajava por lugares subterrâneos e ermos, altos e urbanos. Muito do que acontecia era efeito direto de um pensamento meu, ou mesmo de um comando da minha vontade.

Às vezes, eu voava bem alto, outras vezes rente ao chão. Estava deslizando no ar por sobre um cruzamento semelhante a Av João Pessoas com a Rua da República, em Porto Alegre, durante do dia — porém a luz tinha uma qualidade muito insólita, como um amanhecer congelado, o que deixava todas as cores saturadas

De repente, percebi uma mulher deitada ao meu lado: cabelos negros compridos e lisos, rosto pálido com pústulas disformes no lugar dos lábios, os dentes à mostra... era uma morta-viva; e ela tentava dizer alguma coisa. Eu me concentrei, olhando para outra direção e dizendo a mim mesmo que não queria nada daquilo naquele momento. Imediatamente, pude ver, ela se tornou uma pessoa normal, pele morena, saudável, ainda que não especialmente atraente; ela entoava uma canção suave. Quando avistei uma multidão no Parque Farroupilha, ela desapareceu, junto com o aglomerado que havia sido uma cama abaixo de meu corpo inerte.

Depois, eu sobrevoava um bairro mais humilde, uma comunidade que pensei ser a Restinga, porém que se mostrava muito mais organizada e segura ao cair da noite. Vi as crianças retornando de suas brincadeiras de final de tarde, agitadas e sorridentes, perto de muros e terrenos baldios; vi homens e mulheres de volta do trabalho indo lanchar e /ou beber uma cerveja nos bares de conhecidos, rodeados de amigos; vi os funcionários ocupados em produzir e dispor a comida, tanto doces quanto salgados, muito simples e por isso mesmo muito satisfeitos. Tudo parecia muito harmônico e tranqüilo, e eu me senti sereno e contente com aquela visão. Então eu percebi que deveria voltar para o meu corpo.

Quando comecei a percorrer o trajeto, senti que alguém estendeu a mão propositalmente para cumprimentar a minha. Surpreso, me virei com a barriga para cima e olhei o caminha atrás de mim. Um homem de boné verde esmeralda, com pele muito clara e cabelos negros, sem barba ou bigode, com traços aquilinos, olhava em minha direção. Não parecia nem conhecido, nem ameaçador; eu não sabia se ele podia me ver. Continuei olhando, até que ele virou o rosto, deixando à mostra somente o boné verde esmeralda.

Quando pensei em me levantar, no ar, ouvi o despertador tocando. Fiquei em dúvida se deveria voltar ao meu corpo antes de despertar, se isso não seria um problema.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080809


amplo sonho



Eis a natureza da narrativa mítica do Cristo encarnado, tomada como fato concreto e não metáfora: a manifestação na matéria de um ser inicial, anterior a tudo, responsável por tudo, ciente de tudo, presente em tudo.

Pois faz toda a diferença que consideremos o “criador-de-tudo” como mais do que um “nome” para nossos anseios mais fundamentais; se este ser for um ser com consciência — ou consistência — própria, então possui um ponto de vista.

Um ponto de vista é o próprio “ser”, verbo que exprime o ente, o existir. “Fora” deste ser inimaginável que tudo sabe, estão os outros pontos de vista, nós, que pouco sabemos.

Diante deste ponto de vista inimaginável, podemos entender, há um “plano”, ou um “sentido”, para o curso dos eventos. A manifestação deste ser na matéria pretende apoiar este plano, e eis o motivo da mesma.

E se o motivo da manifestação na matéria for duplo? “Para fora” e “para dentro” do ser encarnado? Para fora, para os outros: seu ato de fé, seu legado (motivo acima mencionado). Para dentro, para si: a experiência de ser humano, o aprendizado (motivo pouco mencionado). E como um criador do mundo mudaria, aprenderia, se está além do tempo?

Que a manifestação na matéria não foi o “suficiente”, está subentendido no próprio mito, pois “ele retornará”. Quando retornará? Melhor perguntar: o que é “quando” para um ser que está além do tempo? Ou o que é “suficiente” para um ser que está além do espaço?

Abre-se o mundo ao pensar que este ser está além do tempo e poderia retornar a qualquer época — a fim de reforçar seus ensinamentos, ou a fim de experimentar melhor ser humano.

E se este ser retornasse de outra maneira, sem o conhecimento de quem é? Poderia abdicar da memória da eternidade por um breve sonho de mortalidade? Poderia ser, ou imaginar ser, uma pessoa qualquer, um de nós?

E, sendo infinito em existência e poder, poderia deixar de fazê-lo?

Sabemos que, no mito, ele duvida. Porém, no mundo concreto, haveria a mera curiosidade inconseqüente, haveria a completa inconsciência? O ser que tudo sabe saberia apenas o que se costuma saber, e assumiria um ponto de vista plenamente humano?

Livre no tempo, entretanto, este ser poderia manifestar-se incontáveis vezes, e não somente mais uma vez, no curso dos eventos. Seria muitos de nós, e não apenas um de nós.

E quantos seriam? E poderiam ser todos nós? E se não o fosse, o que significaria a diferença — entre os que são e os que não são este ser manifestando-se na matéria?

E se este ser inicial fosse cada um de nós como sua manifestação na matéria, quanto isto seria diferente de ser simplesmente uma metáfora para anseios que todos possuem?

Eis a natureza da narrativa mítica do Cristo encarnado, tomada como fato concreto e não metáfora: a manifestação na matéria de um ser inicial, anterior a tudo, responsável por tudo, ciente de tudo, presente em tudo.





20080802


outro sonho




A sensação de estar caindo, quase como que parado no ar, paralisado em um movimento infinito, sem saber o porque caía ou o porque da repetição desta situação.

Á minha frente, o tecido verde do chão se mostrava, misturado e visualmente confuso, prometendo um impacto que nunca chegava. Em minha mente, imagens de outros momentos e lugares, principalmente encontros com pessoas conhecidas, lugares e objetos pessoais. Entendi que poderia ser o que se costuma dizer, que recordamos a vida inteira antes de morrer...

Havia tantos objetos e encontros que eu não conseguia especificar nenhum; era como uma rede tão cheia de peixes que não podia ser erguida do oceano. Ao pensar isso, eu vi a rede de pesca. Exatamente como as árvores lá embaixo, observei: eu conseguia ver todas, porém nenhuma me parecia suficientemente nítida, nem realmente uma árvore.

Concentrando-me, enxerguei uma cômoda para roupas em um quarto em minha casa. O pegador tinha um pé de meia para sapatos, de cor preta, dependurada. Aquela imagem tinha algo a ver com meu irmão e uma conversa que havíamos realizado havia muito tempo. Era algo muito importante, referia-se indiretamente a um assunto obscuro, e deixou-nos concluir a respeito de um terrível, abrangente e perigoso segredo sobre, fundamentalmente, tudo que existe.

Foi estranha, quase angustiante, a sensação que tive de dúvida, se a tal conversa havia ocorrido no mundo concreto ou se era apenas uma criação de memórias em meu sonho. No segundo caso, o segredo se perderia para sempre.

E eu seguia com os olhos minhas lembranças, mas ainda despencava lá de cima.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080729


Rio de Janeito - parte I


Era dia, as paredes da casa não possuiam reboco, e no lugar da janela apenas o buraco que não recebera esquadria por falta de dinheiro. A casa tinha vários andares, mas ainda estava toda em fase de acabamento, quando se olhava para o quintal através de alguma abertura se via um mato muito verde quase que como uma selva, casas vizinhas estavam distantes 30 ou 40 metros, não haviam ruas, as contruções pareciam ter brotado do chão.

Estava correndo pela casa procurando a saída, não era a primeira vez que estivera no Rio de Janeiro, mas cada vez a favela se tornava mais caótica, essa casa estava bem no meio do meio caminho em direção a um lugar que sabia que deveria ir mas não sabia onde era, tinha certeza de que quando chegasse lá me lembraria.

O labirinto da maloca gigante me fazia passar diversas vezes pelo mesmo ponto da casa, e seguidamente parava na beira de uma porta que se abria para uma queda que não poderia pular, então voltava.

Num dos pontos da casa um menino jogava água com uma mangueira no chão, toda vez que eu passava por ele ele fazia questão de desviar o jato de água para me acertar.

Lá pela sexta vez que passava correndo por ele resolvi parar e perguntar porque ele fazia isso, ele respondeu secamente,

- "Porque não vou com a tua cara."

continua...



20080727


outro sonho




O problema eram os olhos. Eu podia ficar de olhos bem fechados, porém não podia realmente deixar de abri-los.

Outra forma de dizer seria que eu enxergava através de minhas pálpebras. Ambas as descrições são válidas.

O que a primeira delas explica é que, de certo modo, havia uma espécie de vontade pessoal, minha, em permanecer enxergando, mesmo contra a decisão de fechar os olhos, mesmo contra a lógica natural de que não vemos de olhos fechados... e mesmo contra o medo.

Porque eu sentia medo, muito medo. Não sabia ao certo de quê, e exatamente isso era o que mais amedrontava.

Era realmente irônico, pois o que eu enxergava diante de meus olhos era apenas a escuridão — o que, por definição, é o nada. E ver o nada é não ver.

No entanto, isso não era importante. Importante mesmo era o medo do escuro, o medo do nada denso e pulsante, prometendo que algo simplesmente pavoroso surgiria subitamente de dentro do vazio.

E eu tentava com força permanecer de olhos bem fechados, mas não adiantava.

E eu me escondia debaixo das cobertas, deitado na cama, olhando para debaixo da cama.

E eu enxergava através das cobertas, e eu cerrava os olhos.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080720


Voando baixo

O avião vinha voando baixo, disso tinha certeza, mas somente quando olhei pela janela me dei conta que estávamos a apenas alguns metros da rua que era muito estreita, de algum bairro antigo da europa.

Ele seguia muito devagar e ao tentar passar por debaixo de um varal acabou se chocando em um prédio de esquina. Ouve uma explosão ridícula como de um jogo de videogame, o susto foi leve.

Estavámos um grupo de pessoas no aeroporto, algo tipo uma excursão, entre a multidão do aeroporto começamos a nos despedir desorganizadamente, todos se foram. Sabia que tinha que estar no outro aeroporto em 3 horas, pois senão perderia o outro vôo.

Dentro de um ônibus de linha tentava ler um pequeno e pouco prático guia de viagem com algumas informações porcamente anotadas a lápis, não conseguia ler, estava tudo embaçado e a luz do ônibus era muito fraca.

A sensação era de completo desamparo.

Perdido numa cidade estranha sem falar a língua local e com um prazo apertadíssimo de tempo para me encontrar. Foi quando percebi que por mais esforço que fizesse estava condenado a viver sozinho. Meu coração disparou e despertei.



20080719


outro sonho



Eu andava fora de meu corpo, leve como o vento; sobrevoava a cidade de Porto Alegre, deitado de bruços (mas não me via). Via as pessoas, nos diferentes lugares...

Um casal transando em uma cama com lençóis beges e sombras densas. Três rapazes conversando, acompanhando-se numa caminhada ébria sob a luz amarela noturna dos postes. Uma moça comentava sobre seu casamento com outra, em um bar da Cidade Baixa, em meio à fumaça de cigarros e incensos, dizendo que o seu marido admitia ter problemas em dormir a dois, na mesma cama, que sentia dores nas costas muitas vezes, e que não queria acordar debaixo dela; ela disse que sugeriu a ele dormir por cima dela, ou outra coisa parecida, porém ele acabou dormindo no sofá, o que afetava a vida sexual deles; ela desconfiava que fosse uma desculpa para mero desinteresse. Um mendigo mijava no pé de um semáforo, sem reagir aos olhares dos ocupantes dos poucos carros que ali passavam. Uma dupla de prostitutas produzidas e sensuais paradas na esquina, de vez em quando trocando palavras.

Eu via as pessoas em suas discussões, e pensei “é assim que eles vivem”. Então pensei “e é assim que eu vivo”, me virando para ver eu mesmo, sentado sozinho e pensativo em um ônibus, olhando pela janela, os cabelos compridos e soltos pelos ombros. Eu estava lá e ali.

E então pensei em olhar pela janela, para fora do mundo. Através do vidro da janela maior, na parte de trás do ônibus, observei uma densa bruma branca. Depois, eu não estava mais no ônibus, e sim novamente sobre o mundo, fora dele; em seguida, estava dentro de uma caixa, com todos os lados feitos de vidro e as arestas de um metal escuro.

A bruma branca estava ali, por trás do vidro. Por detrás da bruma eu pude distinguir formas vagas, e tudo começou a se desmanchar; várias vezes, eu precisei me concentrar bastante para permanecer enxergando. A sensação era a de assistir a um vídeo com falha, retornando sempre para o mesmo ponto, de novo e de novo, e sempre emperrando. Não tinha referência de tempo decorrido, ou sequer de número de repetições.

Comecei, aos poucos, a acumular pontos de percepção, e com elas buscar formas coesas. Vi então o gigantesco olho de uma máquina, como uma lente de câmera em um cilindro articulado, apontado em minha direção.

Depois, tudo se desmanchou permanentemente, não pude manter o sonho.

E eu abri os meus olhos e despertei.





20080718


Nojento

Estava comendo um prato de carreteiro, desses bem temperados, molhadinho... delicia! O prato caiu da minha mão e toda comida foi parar no chão.
Olhei para aquilo e pensei: "nossa, estou com muita fome", peguei a vassoura e comecei a juntar toda a comida do chão. Coloquei tudo no prato de novo, um pouco de queijo ralado e estava perfeito! Comecei a comer com uma vontade sem tamanho, até que me deparei com um bolinho de cabelos enrolados no arroz...
Eca, joguei tudo no lixo.



20080711


outro sonho



Mortos-vivos atacavam a casa de minha família em PoA, apesar de que não os víamos por perto naquele momento. Havia várias pessoas ali, escondidas do horror iminente, mas estávamos todos em segurança, temporariamente.

Começamos a organizar a pequena multidão para que subisse em um precário elevador de materiais de construção, feito de madeira e sustentado por uma estranha haste de tábuas. A engenharia não fazia sentido algum se analisada do ponto de vista desperto, porém ali não só fazia sentido como também funcionava.

O elevador levava à sacada sobre a garagem, onde anos atrás comemorei um aniversário com amigos da faculdade e do LEC. Estranhamente, o lugar estava ainda mais inacabado do que na época, basicamente tratava-se de um piso e um forro feitos de cimento puro e alguns utensílios cotidianos improvisados.

Chegando lá em cima, sabíamos que estaríamos seguros, pois não havia uma escada que os cadáveres ambulantes pudessem alcançar. Além disso, haveria um tipo de transporte que nos tiraria dali. Não tenho claro, mas, naquele contexto, parecia algo como um portal tecnologicamente super avançado, quase mágico, como os que são mostrados nos filmes da Enterprise — inclusive com o movimento de um “tubo levando para cima”. O que quer que fosse, não nos surpreendia em nada.

Algumas crianças faziam bagunça, pulavam no elevador, sem noção do perigo de desabamento, e eu gritei para que se comportassem. Ao meu lado, a Sandra também olhou feio para o grupo, que logo se aquietou até passar para a sacada. Ela ficou ali do lado deles, cuidando para que não aprontassem. E meu irmão mais novo, Giuliano, pegou uma garrafinha d’água da minha mão assim que desci do elevador de madeira, e eu não gostei, mas não disse nada na hora.

Depois que todos já haviam subido, percebemos que restavam ainda uns três ou quatro lá embaixo, talvez incapacitados. Giuliano se prontificou a voltar comigo, e despediu-se da Luciane, que estava abraçada a ele.

A sensação de perigo quase beirando o desespero nos deixava com a sensação de que estávamos muito unidos, mais do que nunca, como uma dupla de esportistas ou agentes policiais de filmes norte-americanos. Na descida, peguei a garrafa de volta, com uma expressão de desagrado fingida, meio irônica, significando cumplicidade.

Uma vez lá embaixo, ele começou a reunir os restantes, porque era fisicamente mais forte e capaz de carregar dois feridos. Eu fui fechar o portão da frente de casa, como precaução. Chocado, me deparei com uma cena dantesca: um enorme avião de asas grossas e a cabine composta por enorme janela em mosaico realizava uma aterrissagem forçada na praça em frente à casa, os vidros como quadradinhos vermelhos por onde se via a “tripulação”, uma turba de maltrapilhos pavorosos, pálidos e com as carnes decompostas, os olhos fundos nas órbitas sombrias e mais dentes à mostra do que deveria haver.

Em um piscar de olhos, eles já estavam sobre as asas, sobre todo o avião, piorando ainda mais a imagem do horror, abrindo sua envergadura como um só monstro coletivo. E assim que terra e grama detiveram a aeronave, seguiram avançando.

Eu tinha poucos segundos para fechar o portão e selar as trancas, mas era questão de manter o controle, que tudo daria certo. Depois, bastava subir no elevador.

Meus olhos faiscavam com a visão daquele inferno derrotado e persistente. Era tão descomunal que eu não podia deixar de imaginar se algo poderia sair errado.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080708


Um sonho, hai kai, um sentimento

Aqui, caminhando na rua, pensei: tive um pesadelo muito ruim,
Acordei de olhos fechados e com a tua voz , e te abracei, fiquei confortável e percebi como sou feliz...



20080705


outro sonho



Bersilak de Manifesta, composto de imeneleustrios vítreos. Sendo que "Manifesta" era um lugar. Palavras referentes a um contexto, a uma estética, que não cabiam no mundo da consciência — mundo que, enquanto eu pensava que deveria lembrar depois exatamente o que sabia ali, eu sentia como algo semelhante a um Sol nascente eventual e vagamente temível, prometido por um adivinho ébrio e absolutamente infalível.

E tudo isso parecia fazer um sentido muito natural naquele momento. Este conhecimento vinha acompanhado por uma melodia esdrúxula, uma paródia bizarra de algum ritmo indígena ou asiático, com tambores e certos apitos agudos. Havia mais pessoas comigo, sentadas, escutando... vi uma garota. E eu era careca e usava barba e bigode, muito parecido com um colega psicólogo, o Diego.

A melodia não vinha de lugar algum, e ainda assim me intoxicava inteiramente.

No ritmo dos tambores, eu abri os meus olhos e despertei, e procurei recordar daquele absurdo, nostalgicamente aconchegante, com algumas palavras limitadas, muito limitadas.

E eu abri os meus olhos e despertei.

Ecoando em minha memória no ritmo dos tambores e dos apitos, eu procurei recordar daquele absurdo nostalgicamente aconchegante com palavras limitadas, decepcionantes.

E eu abri os meus olhos e despertei.

E eu procurei as palavras em minha mente e me decepcionei.

E eu abri os meus olhos e despertei.




20080703


Acidente geográfico

Estava na Inglaterra, caminhando por uma praça sem árvores, pavimentada com pedras vermelhas, cinzas e brancas, chegando do outro lado da praça já estava na França (tsc).

Carregava uma sacola com um abajour que instantes depois era uma lixeira dessas que possuem um pedal para abrir a tampa, na sacola mais alguns objetos usados.

Estava decidido a ir até uma banca de um brique trocar essas quinquilharias por um livro que me interessava, no caminho passei por uma casa especializada em bebidas, algum tipo de destilado, muitos turistas, alguns brasileiros.

Ao entrar na casa as pessoas diziam, "Bom Dia" e em seguida "Bonjour", falavam assim porque eram do sul da França (tsc).

Acabei não trocando o livro e nem provando a bebida.



20080702


rabiscando o pensamento




Partilho este sonho

imagens de lilian maus



20080628


outro sonho



Eu estava sentado na beira do Lago Guaíba, no Gasômetro. Parecia que a cidade inteira estava refletida na água tranqüila, plana feito um espelho, em um ângulo óptico impossível no mundo desperto. A imagem acompanhava uma espécie de "consciência" sobre aquele cinzento meio urbano.

Em seguida, levantei e fui andando e adentrando cores inesperadas pelo caminho. Pela calçada cor-de-manga, olhando muros e cordões coloridos por grafismos urbanos, assim como um poste, uma lixeira, e outras coisas da cidade, cobertas de flores, borboletas, dinossauros, palhaços macabros pálidos e de lábios vermelhos, nuvens de algodão-doce, rappers e dançarinos angolanos, etc. Parecia um dos trechos de saída do Gasômetro, no Centro de Porto Alegre — a parte velha, estreita e asperamente nostálgica — só que não era nenhuma das ruas que eu conhecia.

Eu era uma imagem sobreposta, às vezes era Giovani do mundo desperto, às vezes era uma garota de cabelos lisos e olhar pensativo, quase triste. Eu pensava sobre uma esta idéia interessante, porém pouco prática, de criar um b’log sobre sonhos. Obviamente eu sabia que não era, nem de perto, uma idéia original, mas sentia que valia a pena simplesmente por ser meu.

Entrei por uma viela, depois por uma porta simples, de madeira descascada e cheia de frestas, e lá dentro era muito escuro. Haviam algumas pessoas ali reunidas, sentadas ou de pé conversando na penumbra, e o que parecia ser um ringue de boxe iluminado lá no fundo, só que em cima dele estavam pares de jogadores de xadrez.

Olhei-os, parado de pé, quando então me dei conta: estava sonhando. Fiquei um pouco desapontado porque sabia que, inevitavelmente, isso implicaria em terminar o sonho e, portanto, eu não teria a oportunidade de levar minha idéia às pessoas que fui encontrar ali. Tive um sentimento semelhante à nostalgia, só que por algo que eu sabia que nunca chegaria a acontecer.

E eu abri os meus olhos e despertei.




b’log Oniros - Vida Onírica: alguns sonhos como elaboração literária, atualmente mais lentas... será que sonhamos menos? ou temos menos tempo para nossos sonhos? a sinfonia de sombras escassas, todavia, prossegue o inventário de noites, sestas e devaneios.